Petronilo Martins de Araújo vivia em sua Fazenda, que começava no sopé do serrote do Boqueirão e se estendia pelas margens do rio Espinheiro até onde desemboca no rio Seridó e hoje é uma dos pontos mais profundos do grande Açude que tem o nome de um Ministro mas o povo só chama de Boqueirão.
Plantava algodão, criava gado leiteiro, cavalos que se tornaram famosos nas festas de vaquejadas e no casarão da fazenda se rezavam terços em comemoração aos Santos de sua devoção, que eram seguidos de cantorias com violeiros repentistas, leilões e bailes animados e muito freqüentados. Era um homem muito alegre e não tinha inimigos.
Todos os anos, no dia 10 de janeiro, às quatro horas da tarde, a Festa de São Sebastião tinha início com a saída da antiga imagem do padroeiro em procissão do terreiro de sua casa até o Cemitério dos Coléricos na entrada da cidade, onde a multidão aguardava com banda de música e foguetões, Petronilo levando sempre em seu ombro direito um dos suportes do andor. Dali, a procissão seguia para a Matriz onde eram hasteadas as bandeiras e solenemente inaugurava-se o novenário tal como ainda hoje acontece. A estória que se segue, protagonizada por ele, me foi contada por meu primo Zé Bileco, que hoje vive em Portugal:
Agosto de 1959, já escurecendo, Petronilo chegou da cidade em seu jipe com as compras de mantimentos da semana, estacionou debaixo do pé de cajarana e estava transportando as mercadorias para o alpendre, quando ao passar por uma cangalha deixada no chão por algum desmazelado, um dos cachorros da fazenda, que se escondera debaixo dela, avançou direto na batata de sua perna, deixando a marca da dentadura e muito sangue jorrando.
Instintivamente, pegou uma enxada que estava perto e com um só golpe na cabeça deixou o animal sem vida. Entrou em casa e mostrou o estrago a sua esposa, que comentou ter estranhado o comportamento de Rex, pois desde o amanhecer não o tinha avistado e tanto sua comida como a água depositados nas suas vasilhas estavam do jeitinho que ela deixara de manhã.
Só pode estar com a moléstia dos cachorros, pois nunca tinha mordido ninguém – pensou – entrou no jipe e voltou para a cidade onde parou na frente da casa de Dr. Lordão e narrou o acontecido. O médico providenciou um curativo de emergência, aplicou-lhe um sedativo e determinou que fosse imediatamente para Natal, a fim de receber tratamento adequado e que providenciasse alguém pala levá-lo, pois não era conveniente dirigir 230 quilômetros à noite, em estrada de terra e em péssimo estado, com aquele ferimento sangrando.
Pelas 9 da noite conseguiu convencer Assis de Maroquinha a levá-lo até Natal, deitou no banco traseiro e dormiu, apesar dos catabis. Lá pelas tantas, acordou com a claridade das luzes de uma cidade, olhou para o relógio - era uma da madrugada - perguntou se já haviam chegado e foi informado de que estavam passando em Santa Cruz – metade do caminho em 4 horas, pensou – e pediu para que aumentasse a velocidade pois o ferimento estava doendo muito não podiam perder tempo, mas dava para sentir a má vontade do motorista e continuaram em marcha lenta até que teve uma idéia: começou a ranger os dentes, gritar coisas desconexas, rosnar e latir.
Assis fincou o pé no acelerador, ajustou o espelho retrovisor interno para o banco traseiro, olhava com o rabo de olho e repetia constantemente: “güente mais ou pouquinho que tamo chegando”. Se a velocidade diminuía, voltava a latir e o jipe voltava a voar baixo, com o pedido: “güente aí Petronilo, em Tangará começa o asfalto e até Natal vai ser um pulinho”.
Antes do amanhecer estava desembarcando no Hospital das Clínicas onde ficou internado e a notícia foi destaque nos jornais A República e Tribuna do Norte: “Agricultor de Parelhas mordido por cachorro louco está internado no HC”.
Dias depois, ainda no hospital, recebeu uma visita inusitada: o Coronel Severino Elias, homem muito culto e respeitado, que à beira da cama, elogiou o sucesso do tratamento, e recomendou repouso total, pois se tivesse uma recaída, não haveria mais remédio no mundo que desse jeito e emendou, com o pedido de um favor: se por acaso quando voltasse para Parelhas, tivesse algum problema no tratamento e sentisse que estava tendo a recaída, procurasse imediatamente Dr. Lordão e antes que lhe fosse dado qualquer medicamento, atacasse o médico, desferindo-lhe tantas mordidas quantas lhe fosse possível.
Ficou indignado com o pedido, pois era muito amigo do médico e lembrou-se do susto que dera em Assis na viagem; cobriu a cabeça com o lençol e começou a rosnar e a latir, tentando levantar da cama. O Coronel saiu em desabalada carreira e nunca mais voltaram a se encontrar.
O único problema foi convencer os médicos de que se tratava apenas de uma brincadeira, pois dois fortes enfermeiros se aproximaram trazendo uma camisa de força, mas depois que narrou o pedido feito pelo visitante, todos derem muitas risadas e ele recebeu alta na hora.
Alínio Silva do Nascimento