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O menino e a mata
Publicado em 12/02/2008 19:02:21

 

É o desejo daquele menino mergulhar num mundo que para ele é real, que ocupa seus pensamentos, onde está a sua cabeça, embora que os pés estejam a uma grande distancia. Vejo-o passeando no serrote da Pedra da Paz, subindo como tantas vezes o Alto Redondo, cenário das suas caminhadas desde muito tempo, na Malhada Vermelha.

A grota do riacho do Cajueiro é como uma visão que estivesse ali, naquele momento; as craibeiras do riacho da Quixaba, que ele ama como se fosse suas próprias irmãs, porque o viram, nascido, crescer sob elas, no vai-vem da ladeira do Saco dos Pebas, até a cachoeira da serra, seca como sempre, a espera das chuvas para se derramar como o véu de uma noiva agitada pelo frenesi de um momento todo especial e gostoso de uma realidade que dura apenas dias, por vezes semanas.

O murmurar da correnteza da água quebra o silêncio, juntamente com as lufadas do vento que balançam os ramos e dão diversidade de formas às pétalas das flores, renovando a sua beleza. Ele, por um momento pára, se imobiliza enquanto um beija-flor colhe o néctar essencial para a sua vida. Vê também uma profusão de abelhas zumbindo em sua revoada, como se fosse uma formação, de tão organizada. De repente, o estriduloso canto do nhambu quebra o quase silêncio daquele ambiente, mas não fere os seus ouvidos, pois ele gosta.

É este o ambiente que lhe satisfaz, onde ele cresceu; não é uma Mata Atlântica, muito menos uma Floresta Amazônica, mas é a sua mata, que seca com o sol forte e contínuo de muitos e muitos dias do ano; não tem água corrente, somente alguns pequenos choradores vertem em quantidade insignificante, mas suficiente, apenas, para matar a sede daqueles pequenos animais aclimatados naquele sertão seco; não é tão raro ver um sagüim saltitando naquelas árvores maiores: craibeiras, juazeiros, quixabeiras, aroeiras, cumarus, imburanas... ou velhacas raposas atravessarem os caminhos; raríssimo o encontro com um gato do mato.

Como milagre, aquelas árvores floram em plena estação seca e frutificam, despejando no solo quantidade de sementes que vão garantir a preservação das espécies. Para ele, é difícil ser de lá e não amar aquela mata. Por quantas vezes já sonhou com ela e por tantas outras foi lá pessoalmente receber outras sementes, as do amor àquela terra, àquelas árvores, àqueles caminhos, que sempre lhe premiam com novas e agradáveis surpresas como se os estivesse vendo pela primeira vez.

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